Mar 22nd, 2010
Os ângulos do preconceito
Por Carlos Thompson
É muito interessante como avaliamos as notícias de acordo com a proximidade que tenhamos com o assunto. Ou seja, somos mais condescendentes com aquilo que conhecemos, e mais críticos com o que desconhecemos.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com duas recentes notícias sobre crimes ocorridos no estado de São Paulo. Uma delas, contava que um motorista bêbado dirigiu quilômetros na contramão, em estrada paulista, até se chocar contra um carro e matar um casal. Não li apelos emocionados pela proibição do álcool ou por avaliações mais rigorosas de motoristas, para saber se beberam ou não antes de dirigir. Ou para aumentar a pena de quem dirige e mata movido a álcool.
Por quê? Por que álcool, para consumo social ou abusivo, é velho conhecido da humanidade.
Pois bem, desde que um rapaz matou o cartunista Glauco, e o filho dele, Raoni, muitas missivas aos jornais questionavam o fato de o assassino consumir o chá do Santo Daime, em cerimônias na igreja Céu de Maria, fundada pelo cartunista.
Pois bem, não pouparam o Santo Daime de críticas, inclusive de que não seria apropriado a um uso urbano.
Desequilibrados matam sob o efeito de álcool, drogas, medicamentos, chás ou água. Matam por que deveriam ser tratados em local adequado, mas isso não é politicamente correto. A ordem vigente é que fiquem em casa, sem internação, como criticou o psicanalista e colunista Contardo Calligaris, na Folha de S.Paulo, em brilhante artigo, no último dia 18 de março. Ele disse: “se não fosse tão difícil internar indivíduos perigosos, Glauco e Raoni estariam conosco”.
Realmente, é bem mais fácil culpar um chá e uma manifestação religiosa.
*Carlos Thompsom é jornalista, diretor da Casa da Notícia (SP), responsável pelo atendimento aos clientes, pela elaboração de projetos, treinamento de porta-vozes e gestão de crises. Foi repórter da Folha de São Paulo, do Jornal Computerworld, do Jornal Zero Hora, Folha Hoje e da Rádio Gaúcha.
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