Fev 22nd, 2010
Jornalismo cultural é o tema da entrevista com Dedé Mesquita
Entrevista Dedé Mesquita (Jornalista)
Jornalismo cultural
Por Jorge Sauma Jr. e Heleize Sena
A rotina é cheia. Os repórteres recebem as coordenadas, as assessorias de imprensa que ligam a cada instante negociando novas pautas, e a comunidade que encontra nos veículos de comunicação o porta-voz de suas reivindicações. E lá se vai mais um dia de trabalho na vida da jornalista Dedé Mesquita, produtora executiva do Jornal Amazônia, veículo das Organizações Rômulo Maiorana (ORM).
Experiente, com mais de 15 anos no mercado, Dedé atuou com comunicação organizacional na época em que foi assessora de imprensa da Secretária de Cultura do Estado do Pará (Secult-PA). Mas foi na redação que a jornalista “fixou residência”. Em 1999, já como contratada das ORM, ela foi chefe de reportagem da Rádio Liberal AM e um ano depois, assumiu a função que exerce hoje.
Em entrevista exclusiva ao blog Gaby ++Aditivado, Dedé Mesquita conta um pouco de sua experiência, da relação com as assessorias de imprensa, da paixão pelo cinema e, ainda, do jornalismo cultural paraense.
Gaby Aditivado – O jornalismo impresso carrega uma responsabilidade muito grande junto à população ao mesmo tempo em que corre contra o tempo atrás da notícia. Como é que funciona esse processo, desde a apuração até o produto final? Pode contar um pouco como acontece no Jornal Amazônia?
Dedé Mesquita – A nossa rotina na produção começa sempre mais cedo que a chegada dos repórteres e fotógrafos na redação. Do dia anterior já deixamos uma pré-pauta que recebemos com sugestões que vêm por e-mail, telefone, de assessorias e, no caso do Amazônia, temos um cuidado especial com os pedidos da comunidade, que nos liga todos os dias com suas reivindicações. Com essa prévia, elegemos o que chamamos “pode render”, e mandamos as equipes à rua ou, se for o caso, “grudarem” no telefone para fazer a apuração. O que acontece quase sempre é que a pauta sai de um jeito e volta de outro porque, claro, temos os imprevistos. E passamos a manhã vendo o que temos para o turno da tarde, que são outras matérias ou continuar explorando e ampliando os temas iniciados pela manhã. O fato é que, ao final do dia, o que o leitor vai ler no dia seguinte já deve estar escrito e fotografado para que a edição faça o seu papel, que é de dar a cara do jornal que o leitor terá em suas mãos. E sim, em redações jornalísticas não se pronuncia a palavra rotina. Essa “entidade” não faz parte do nosso dia-a-dia.
GA – Como é a relação dos jornalistas da redação com as assessorias de imprensa?
DM – Da mesma forma que as assessorias têm cadastrados os veículos de comunicação em suas agendas, nós temos os números das assessorias para que sempre possamos pedir notas, esclarecimentos e ajuda para marcar pautas e entrevistas. Acredito que há uma relação de confiança, já que sem isso, algumas reportagens poderão ficar como o que chamamos no jargão jornalístico “o outro lado”. E isso não interessa nem às redações, nem às assessorias.
GA – E com o jornalismo online? Você compartilha da idéia de que um dia o jornalismo impresso não irá mais existir?
DM – Não acredito no fim do jornalismo impresso. O que vejo são mudanças nos impressos adaptando-se às novidades tecnológicas. Vejo, hoje, o online como mais uma ferramenta para ajudar o impresso. O online, pela velocidade permitida pela internet, muitas vezes ajuda o impresso, a televisão e o rádio, ainda como a chamadas mídias sociais, onde se destaca o Twitter. Um exemplo recente foi a morte do cantor Michael Jackson dada, antes de todos, pelo blog americano TMZ.
GA – Existe algum tipo de regra ou manual para trabalhar na redação de jornal? Qual o perfil desse profissional?
DM – Não temos um manual como os existentes na Folha de S. Paulo ou no Estadão, por exemplo, mas temos uma cartilha na redação que orienta a cobertura policial dos dois jornais, O LIBERAL e Amazônia. A cartilha foi confeccionada pelos jornalistas da redação, com a colaboração de todos, em especial daqueles que têm mais conhecimento sobre determinado assunto. Todos os repórteres e fotógrafos as possuem e é recomendado que essas normas sejam sempre consultadas em casos de dúvida.
GA – Nas páginas culturais do Jornal Amazônia, não precisa muito esforço para perceber a sua grande identificação com o cinema. Você acredita que na cidade há uma forte tendência para essa cultura no jornalismo?
DM – A coluna de cinema do jornal Amazônia é de minha responsabilidade. Sou cinéfila de carteirinha e matrícula. Faço parte da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), mas não é por isso que escrevo sobre cinema. Minha relação com a Sétima Arte vem de uma paixão antiga, à qual sou muito fiel. Belém é uma cidade que gosta muito de cinema, basta ver as filas nas salas de cinema, mas é um público que privilegia mais o entretenimento, mais a diversão. Mas há também um público que procura o cinema com mais conteúdo. Não é à toa que temos os Cine Líbero Luxardo, o Cine Estação, o projeto Moviecom Arte e os cineclubes, como o Alexandrino Moreira (no IAP), o Pedro Veriano (na Casa da Linguagem) e o Cineclube do CCBEU, sem esquecer, logicamente, o Cine Olympia, o mais antigo do Brasil, ainda em funcionamento. Partindo desses princípios, acredito que o jornalismo cinematográfico deveria ser mais forte em Belém, no sentido que mais pessoas pudessem expressar suas opiniões sobre o assunto. No Amazônia, quando recebemos pedidos de publicação de textos sobre filmes, como críticas, sempre publicamos.
GA – Na condição de jornalista e pesquisadora, você crê no avanço de pesquisas científicas nessa área que envolve jornalismo e cinema? Pode citar um exemplo?
DM – Acredito que essas pesquisas apresentam uma tendência de crescimento. Posso citar o meu caso, em particular, quando fiz meu Trabalho de Conclusão de Curso, em 1999, sobre o cineasta Líbero Luxardo, tive muita dificuldade já que não havia nada escrito sobre ele. Foi uma pesquisa grande, especialmente, em jornais das décadas de 40 a 80, e muitas entrevistas. Com o passar dos anos, percebi que o assunto cinema no Pará ganhou mais fôlego e muitos trabalhos já foram realizados, inclusive outras monografias sobre Luxardo, o que é um grande avanço para que a memória do movimento cinematográfico paraense seja preservada. Também é possível citar a pós-graduação Imagem e Sociedade - Estudos Sobre Cinema, promovida pela UFPA, onde várias pesquisas foram feitas, com conteúdos brilhantes. Por falar na UFPA, aquela instituição está se preparando para fazer seu primeiro vestibular para o curso de Cinema, que, acredito, vai permitir maiores avanços na área da pesquisa em cinema no Estado.
GA – Como avalia a produção de jornalismo cultural em Belém? Há novidades ou ainda é pautada na divulgação de shows, peças teatrais, além do próprio cinema?
DM – Essa é uma pergunta difícil de responder. Ela sempre provoca melindres. Não temos pautas críticas. O jornalismo cultural em Belém ainda se pauta pelo “agendão” (”Amanhã, show de Fulano, no teatro…”). O cinema pode ser encarado como a saída porque ele ainda se propõe a fazer crítica, mas isso é pelo distanciamento, já que os filmes vêm de fora (James Cameron nem saberá que alguém, aqui em Belém, fez uma crítica negativa à “Avatar”, por exemplo). O que vejo é que Belém é uma cidade pequena, no sentido em que todos se conhecem. As pessoas, aqui, ainda não conseguem encarar a crítica de forma construtiva, acreditam que o jornal a faz como que para “derrubar” o espetáculo. E isso é muito antigo. Vem de muito tempo. Não há críticos de música, nem de teatro. E penso que se eles existissem seriam as pessoas mais odiadas pelo meio artístico, como aqueles que, anos atrás, faziam essas críticas e se cansaram de ser “crucificados” em praça pública. Justamente porque as pessoas (os artistas, diga-se) acabam levando as críticas para um lado muito pessoal, o que, num “mundo cor-de-rosa”, não deveria existir.
*Dedé Mesquita, 46 anos, é jornalista formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), desde 1999, especialista em Cinema e Sociedade, pela UFPA, e em Sustentabilidade e Meio Ambiente, pela Fundação Dom Cabral (MG). É membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), organização que produz estudos sobre cinema e exibições cinematográficas e, sobre o assunto, assina a coluna cinema do Jornal Amazônia, onde faz críticas sobre filmes e DVD’s. Já atuou na assessoria de comunicação da Secretária de Cultura do Estado do Pará (Secult-PA), foi chefe de reportagem da Rádio Liberal AM e, desde abril de 2000, quando o atual Jornal Amazônia, era lançado em Belém como novo veículo das Organizações Rômulo Maiorana (ORM), assumiu a função de produtora executiva, onde coordena o trabalho de mais de 30 jornalistas.
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Muito boa a entrevista. Sou de São Luis, mas imagino que a jornalista seja bem conceituada por estar no maior grupo de comunicação do Pará.
Adorei a entrevistaaaa! parabéns Dedé. Sua carreira é belíssima e temos que primar por mais profissionais como vc no jornalismo.
Ficou muito boa a entrevista. Gostei mesmo.
Dedé, obrigada pela colaboração.
A Dedé é maravilhosa! Profissional que faz toda diferença em qualquer redação