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Entrevista Wilson Bueno (jornalista)

“A profissão continuará sendo exercida em sua plenitude”, diz Wilson Bueno

Por Jorge Sauma e Gustavo Arcanjo

O Brasil, quinto maior país em extensão do planeta, é, também, uma das nações com maior número de cursos de jornalismo. Segundo dados do censo do ensino superior, o número de cursos saltou de 260, em 2000, para 443 em apenas três anos, o que corresponde a um aumento de 70%. Do total de cursos, apenas 74 são públicos e 369 são particulares.

Com tantos profissionais diplomados e em formação, redações e agências de comunicação exigem qualificação e pró-atividade de seus funcionários. No entanto, segundo o jornalista Wilson Bueno, o mercado de jornalistas no Brasil é heterogêneo. “Há grandes agências, assessores de imprensa de alto nível e que se situam em patamar equivalente ao dos países desenvolvidos. No fundo, esta heterogeneidade não é apenas encontrada nas assessorias de imprensa, mas inclusive nas redações”, garante Bueno.

Em entrevista exclusiva ao Gaby ++Aditivado, blog corporativo da Gaby Comunicação, Bueno fala mais sobre novas mídias, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e sobre o mercado na Região Norte do país. Confira.

Gaby Aditivado - Como você avalia a qualidade dos assessores hoje em dia?

Wilson Bueno - O mercado é muito heterogêneo no que diz respeito ao desempenho e postura profissionais, mesmo porque algumas vezes ele tem sido invadido por colegas que desconhecem a realidade das redações, confundem o conceito de notícia e atuam de forma pouco ética. Mas em contrapartida há grandes agências, assessores de imprensa de alto nível e que se situam em patamar equivalente ao dos países desenvolvidos. No fundo, esta heterogeneidade não é apenas encontrada nas assessorias de imprensa, mas inclusive nas redações. Há veículos e veículos e, para um mercado tão amplo como o brasileiro, vai ser sempre assim.

GA - Qual o seu conhecimento sobre o mercado de comunicação empresarial na região Norte, especificamente no Pará?

WB - Na verdade, tenho conhecimento bastante pontual deste mercado no Pará e quase sempre vinculado a empresas de pesquisa, museus, institutos. Posso dizer que eles acompanham, nos casos que conheço, o bom nível encontrado em outras regiões do País. Mas teria mais autoridade para emitir com amplitude esta opinião se tivesse contato maior com empresas privadas, secretarias de Estado etc.

GA - Qual a importância de uma formação para se divulgar a ciência?

WB - A importância da formação (eu diria até que de especialização nessa área) é essencial porque a divulgação científica é uma atividade complexa na medida em que estamos sempre diante de temas multi e interdisciplinares e, como jornalistas, necessariamente não dispomos de informações qualificadas para cobri-los. Sem esta formação, que incluiria conhecimentos mais do que triviais em história da ciência, sociologia e filosofia da ciência e política científica. É preciso lembrar que há um hiato enorme entre as fontes e a audiência, sobretudo no Brasil onde o analfabetismo científico é elevado, tendo em vista a precariedade do ensino de ciências nas nossas escolas. O desafio é imenso e devemos estar preparados para superá-lo.

GA - O que há de específico na formação de divulgadores científicos?

WB - Conhecimento da pauta, do objeto a ser coberto (mudanças climáticas, segurança alimentar, nanotecnologia, biodiversidade, cosmologia etc etc) e sobretudo uma sólida formação, como apontei na resposta anterior, em história, sociologia, filosofia da ciência etc. Sem esses elementos fica difícil contextualizar a notícia de ciência e motivar a audiência (leitores, internautas, radiouvintes, telespectadores etc).

GA - Qual a importância da utilização dos novos meios de comunicação como Twitter, orkut, entre outros, no relacionamento das empresas com seus clientes? De que maneira as empresas podem utilizar essas ferramentas para melhorar seu relacionamento com seus clientes aumentando a qualidade de seus produtos e serviços?

WB - As redes sociais e os espaços para expressão democrática de opiniões potencializados pelas novas tecnologias e novos ambientes comunicacionais constituem-se já em agentes importantes para a construção da cidadania e a inclusão social. É evidente que temos ainda que amadurecer muito, mas as novas gerações sobretudo desempenharão com tranqüilidade esta função porque já estão nascendo com elas. As organizações podem valer-se destes ambientes, mas será preciso sempre lembrar que há uma ética e uma postura a serem preservadas e que muitas organizações confundem relacionamento com manipulação da opinião pública. Estes espaços não servem para isso.

GA - Qual o posicionamento que as empresas devem adotar diante desse novo cenário?

WB - Capacitação dos seus profissionais para o trabalho com as novas tecnologias e novos ambientes comunicacionais, mudança drástica de sua cultura organizacional, ainda sintonizada com uma gestão autoritária, avessa ao debate, ao diálogo, à aceitação de divergências e que vê críticas como ameaças e ruptura de autoridade. Num primeiro momento, elas, como têm ocorrido, tem tateado no escuro e, inclusive, cometido equívocos fundamentais (estão mais dispostas a monitorar, a silenciar adversários do que em participar, interagir). Mas o tempo é tirano e, como estas mudanças são irreversíveis, elas vão acabar aprendendo.

GA - A comunicação democrática é tendência utilizada mundialmente. No Brasil, o STF já cassou a obrigatoriedade de diploma para exercer a profissão de jornalismo. Diante desse contexto, qual sua opinião sobre o futuro da profissão?

WB - A profissão continuará sendo exercida em sua plenitude, com qualidade, pelos autênticos profissionais de imprensa, mas é preciso reconhecer que a eliminação da formação superior para a prática do jornalismo pode contribuir para a degradação do salário e o enfraquecimento das entidades sindicais. Os cursos de formação terão que ser reformulados, adaptando-se a esta nova realidade.
Embora seja totalmente favorável á formação específica em Jornalismo, não posso negar que há cursos (e não são só em Jornalismo, é claro) que não passam mesmo de fábricas de diplomas, respaldadas na regulamentação profissional. Espero que estes cursos fechem porque jamais contribuíram para o enriquecimento da profissão. Os bons cursos serão, a meu ver, ainda mais valorizados.

GA - Em seu artigo intitulado ”O jornalismo, além dos leads e dos releases”, você afirma que: ” O jornalismo brasileiro anda cada vez mais burocrático e menos investigativo e, por isso mesmo, repetitivo, monótono, com cara de “pau mandado”. As nossas inúmeras imprensas brasileiras, apesar de sistemas de produção distintos e visões muito díspares de seu papel na sociedade, têm se caracterizado por um atributo comum: a ausência de perspectiva crítica.” O que deve ser feito para mudar esta realidade?

WB - Acho que é fundamental, na formação dos jornalistas (e aí o papel importante dos bons cursos) privilegiar o espírito crítico e não o adestramento como tem ocorrido na maioria das nossas universidades. Há cursos que transformam o jornal-laboratório, que deveria ser um espaço de experimentação, em folhetos de divulgação das instituições ou de promoção de dirigentes e chefias. É fundamental denunciar estes abusos e levantar a bandeira da formação crítica, do papel da pesquisa, da investigação. Caso isso não aconteça, teremos redações cada vez mais dependentes de empresas e governos, esse jornalismo com cara de oficialesco que não contribui para a construção de uma verdadeira democracia.

*Wilson Bueno é jornalista, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP (mestrado e doutorado), coordenador do curso de especialização em Comunicação Empresarial da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP. É Editor de 6 sites temáticos em Comunicação/Jornalismo , diretor de divulgação e publicações da ABJC-Associação Brasileira de Jornalismo Científico. Coordenador do grupo de pesquisa Criticom- Comunicação Empresarial no Brasil: uma leitura crítica. Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

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3 comentários para “ “A profissão continuará sendo exercida em sua plenitude”, diz o jornalista Wilson Bueno ”

  1. Jorge em 11 de Agosto de 2009 às 10:16

    Queria saber do Wilson se o mercado cientifico no jornalismo é amplo? Ao pessoal do Gaby Adivivado, parabéns pela entrevista. Muito boa, claro, melhor ainda quando é com quem entende do assunto como o Wilson Bueno.

  2. Carla em 13 de Agosto de 2009 às 16:34

    Se o salário de jornalista aqui em Belém já era ruim, com essa confusão de cursos particulares e a não exigência do diploma, acho que a situação não é tão boa quanto parece. Acho que o mercado vai continuar a mesma coisa, dependendo muito de conhecer um ou outro, pois desde sempre conseguir uma vaga depende muito de vc ter um “colega” pra te auxiliar no início do caminho… ou seja, o curso é importante, a formação te dá o respaldo da academia, porém o dia-a-dia vai te mostrar que a competência nem sempre é considerada no primeiro momento.
    O que mais tem é gente “comprando” diploma e dizendo por ai que é jornalista e pegando o lugar de muita gente boa….

  3. Yvana Crizanto em 18 de Agosto de 2009 às 11:13

    À equipe da Gaby Comunicação, parabéns pela iniciativa do blog nesse perfil. Saber sempre mais é fundamental!!!
    Queria sugerir uma entrevista na área de comunicação com comunidades, que tenho visto como o recente desafio da nossa profissão. Um abraço!!!

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