Aditivado

Receita de desinformação

Carlos Thompson1 - Carlos Thompson1

Por Carlos Thompson

O dia 17 de junho de 2009 entrou, sem dúvida, para a história do jornalismo brasileiro. Isso graças ao Supremo Tribunal Federal (STF), que, por oito votos a um, decidiu que o diploma em jornalismo não seria mais obrigatório para o exercício da profissão.

Foi uma decisão polêmica, com toques pitorescos, como a afirmação do presidente do STF, Gilmar Mendes, que comparou o fim do diploma à não exigência de diploma para culinária ou corte e costura.

E que provocou a ira da maioria dos jornalistas, mas que foi apoiada por muitas empresas jornalísticas.

Particularmente, considero que a decisão decorreu da animosidade contra os jornalistas, provocada pelas reportagens investigativas, que incomodam em demasia políticos, magistrados etc.

Estranho, contudo, que uma profissão que informa e forma milhões de brasileiros seja confundida com liberdade de expressão em geral. Explico: o argumento de que a exigência de diploma restringia a liberdade de expressão é um tanto quanto estapafúrdio, porque o conceito desta liberdade refere-se ao livre direito de expressão, e não ao direito de publicação de opiniões.

Todos têm direito à saúde (ao menos na Constituição), mas não de exercer a Medicina. Todos têm direito à educação, mas não de ministrar aulas em um curso superior, por exemplo.

Todos têm direito à Justiça, mas não de ser ministros do STF.

Em uma época na qual crescem as exigências para o exercício de qualquer profissão (tente conseguir emprego sem ter cursado, no mínimo, o ensino médio!), assusta-nos que nem ao menos se exija curso superior para o exercício do jornalismo.

Lembro que, antes do diploma, muitos profissionais de variadas áreas aceitavam ‘contribuir’ com as redações em troca de notoriedade em suas verdadeiras carreiras. Ou por desejo de influenciar pessoas e instituições.

Se em lugar do diploma de jornalismo a exigência fosse a conclusão de um curso superior, mais uma pós-graduação em jornalismo, ao menos demonstrariam preocupação com a qualidade do profissional e das informações que divulga.

Não sei se o fim do diploma será modificado por meio de legislação específica, mas foi, nitidamente, uma involução democrática. Os episódios políticos que temos acompanhado demonstram o quanto é importante o jornalismo independente, exercido por profissionais valorizados e especializados.

*Carlos Thompsom é jornalista, diretor da Casa da Notícia (SP), responsável pelo atendimento aos clientes, pela elaboração de projetos, treinamento de porta-vozes e gestão de crises. Foi repórter da Folha de São Paulo, do Jornal Computerworld, do Jornal Zero Hora, Folha Hoje e da Rádio Gaúcha.

Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 174

2 comentários para “ Receita de desinformação ”

  1. Jorge em 30 de Julho de 2009 às 17:15

    Um absurdo essa situação. É lamentável que num país tão rico em algumas coisas, tenha pessoas que não enxergam determinados valores e conquistas de uma classe.

  2. Douglas Castro em 30 de Julho de 2009 às 21:45

    Como estudante do segundo semestre de jornalismo, me deparei com esse absurdo. Meus pais ficaram sem saber o que fazer comigo, já que pagamos a faculdade com muito suor. Mas disse pra eles que ia continuar, que os grandes profissionais nao iriam perder espaço. Vou continuar. Bem pertinente a opiniao do jornalista acima.

URI de rastreio | RSS dos Comentários

Deixe uma resposta.